Parece-me relevante começar por explicar o surgimento da internet, de forma a tentarmos entender o que esta por detrás desta grande temática.
Em Fevereiro de 1995surgiu a internet, em que faziam-se sentir períodos áureos da Guerra Fria (1945 a 1991 entre a União Soviética vs Estados Unidos) e foi criada com objectivos militares, uma vez que foi idealizado como uma forma de manter as comunicações, em caso de ataques inimigos que destruíssem os meios convencionais de telecomunicações.
Contudo o responsável primordial da invenção no século, foi Tim Berners-Lee, pois este foi quem impulsionou o desenvolvimento da Web. Propôs também em 1989 um projecto de hipertexto que ficou conhecido como a World Wide Web. Esta inicialmente funcionou apenas num regime fechado, ficando disponível a nível mundial apenas anos mais tarde.
A partir do final de 1994 houve um crescente interesse público na internet, coisa que antes não acontecia, pois era considerado um importante meio de comunicação académico, onde estudantes e professores universitários, principalmente dos EUA, trocavam ideias, mensagens e descobertas pelas linhas da rede mundial.
Podemos concluir assim que em pouco mais de dez anos existiu uma evolução estonteante naquilo que conhecemos como a internet.
O surgimento de vários navegadores/ browsers (Internet Explorer da Microsoft e o Netscape Navigator, Mozilla Firefox), juntamente com acelerado surgimento de provedores de acesso e portais de serviços on line contribuíram para este crescimento rápido e alucinante.
A internet é vista e utilizada nos dias de hoje como um segmento social, uma vez que está presente nas escolas, faculdades, empresas, entre outros locais, possibilitando o acesso às informações e notícias do mundo em apenas uns meros “click”! Ou seja, ela serve-nos como auxiliar de aprendizagem escolar, através da realização de trabalhos, auxílio de aprendizagem, entre outros, mas também pode ser vista como pura diversão em sites de jogos online, ou ainda em termos sociais como por exemplo as salas de chat que tornaram-se pontos de encontro virtuais onde podem ser mantidas conversações a qualquer momento. Podemos ainda referenciar a importância da mesma em termos do mercado de trabalho uma vez que muitos desempregados iniciaram a procura de emprego através de sites de agências de empregos ou até mesmo quando falamos do simples envio de um currículo por e-mail. Desta forma, também as empresas viram na internet um excelente recurso para melhorar os lucros, fazendo com que, de certa forma, existisse o surgimento e o aumento das vendas online, transformando a internet em autênticos shopping centers virtuais.
Actualmente é impensável o mundo sem a internet, uma vez que esta apoderou-se das nossas casas em todo o mundo. Um dos motivos que levaram a este pensamento foi o facto de o ano 2006 ter marcado o iniciou de uma nova era, com “a febre das redes sociais” na internet. Das redes sociais que podemos designar como a pioneira foi o Orkut, seguida pelo surgimento de outras como o Twitter e o Facebook.
Posto isto, pode afirmar-se que estar conectado à internet passou a ser uma necessidade extrema e que segundo Manuel Castells (2003), a internet é, acima de tudo, uma criação cultural.
Segundo a Internet World Stats (Junho de 2010), 1,96 bilhões de pessoas têm acesso à internet, o que representa 28,7% da população mundial.
Uma vez que a internet é um espaço público, apesar de não ser percepcionado dessa forma, faz-nos pensar até que ponto devemos expor-nos à mesma e qual será a finalidade de quando o fazemos, uma vez que ela é um meio de transmissão de informações constante que pode ser usada para a obtenção do bem e/ou do mal.
Walter Ong (1982) defende que mais do que qualquer outra invenção, a escrita transformou a consciência humana.
É interessante ver como a escrita tornou-se numa forma de vivenciar a subjectividade, e de realizar a introspecção, mediada maioritariamente pela imaginação, que nos pode levar à criação de personagens que por vezes acabam por se tornar em modelos para pessoas que são "reais", tal como os famosos heterónimos de Fernando Pessoa (este facto remete-nos para outro conceito que é o cyberespaço, que seja abordado mais abaixo). Este facto remete-nos para o mundo da criação de diários. Os diários, ditos tradicionais são designados por um caderninho, que por norma esta selado com um cadeado, ou encontra-se na gaveta trançada de uma escrivaninha. A razão que levava a que o diário tivesse estas características era o simples facto de ser um espaço onde o indivíduo exponha a sua intimidade, sentimentos, ideias, experiências, pensamentos, ou seja, era algo privado.
Este conceito de diário deixou de vigorar, após estes terem começado a ser publicados. As consequências desta acção foram o surgimento dos diários online. Pela primeira vez na história, começou-se a registar os próprios pensamentos íntimos, as reflexões sobre os sentimentos e os relacionamentos, neste novo género literário, os diários online.
As actividades de leitura e escrita que fazemos no nosso computador reflectem uma fusão do espaço público com o espaço privado, ou seja, uma mistura do interior com o exterior. Isto reflecte como o diário online é uma forma paradoxal, pois envolve a introspecção realizada num ambiente totalmente descoberto e desprotegido que é o online.
Hoje em dia há a possibilidade, quase que em simultâneo, de escrever e publicar os diários, contudo a escrita sempre foi uma actividade mais solitária e ao escrever e imediatamente ficar disponível numa página online, a passagem do privado ao público é eminente. Por vezes o facto de aceder-se à internet a partir de um ambiente privado, como é a casa de cada indivíduo, pode traduzir-se na ilusão de segurança e privacidade, ao mesmo tempo em que se está a publicar algo num espaço público. A internet é interceptada como um espaço público, embora não seja sentida dessa forma.
Em forma de conclusão, acho relevante tocar no conceito de cyberespaço. O termo cyber remete-nos para a cibernética, uma separação entre o interno e o externo, ou seja, não é algo tradicional. O termo espaço significa neste caso, o sentido de meio, ou seja, meio de comunicação e expressão, onde temos espaço para as vivências dramáticas, emoções e também de personagens que projectamos nesse meio. Isto porque a mesma pessoa pode expressar-se de diversas formas nesse meio e criar e recriar novas personagens à sua própria maneira, dando a possibilidade de apenas um individuo vivenciar a expressão da multiplicidade, ou seja, o mesmo indivíduo pode fazer-se passar por diversos, fazendo também ele tornar-se numa personagem. Dado isto, podemos fazer um paralelismo ao nosso conhecido escritor Fernando Pessoa, quando este expressava-se através de heterónimos, pois é um sinónimo deste aspecto do cyberespaço. Para reforçar esta ideia temos a história de Sanford escrita por Sandy Stone (citado em Sayeg, 1998), onde foi inventada uma personagem chamada Julie que através de chats online dá conselhos e consultas de psiquiatria, chegando ao ponto extremo de fazer os indivíduos acreditarem que ela existia realmente, mantendo esta realidade durante vários anos.
Márcio Bento