terça-feira, 28 de junho de 2011

A identidade no mundo online

Universidade do Algarve

2011

Bento, M.

Resumo

Nos dias de hoje a Internet é um meio que tomou o seu lugar na casa dos indivíduos, passando a ser indispensável nos seus quotidianos. O principal objectivo desta recensão é entender se existe alguma diferença na identidade em contexto presencial e no online, e se existe alguma influência em termos sociais para a criação de “heterónimos” e qual a sua ligação com o anonimato. Inerentes à Internet estão associadas as redes sociais, que vêm trazer outras dimensões ao indivíduo, como a criação, observação e experimentação de novas identidades associadas. Associado a este último conceito está um outro designado por anonimato, sendo este o responsável por norma, pela possibilidade de experimentação de vários “Eu’s”. As informações que o indivíduo transpõem para o exterior dão azo a uma formulação de impressões pelos demais. Como principais conclusões podemos apontar a divergência entre a identidade em contexto presencial e no online e a influência em termos sociais para a criação de diversos “heterónimos”. Desta forma podemos realçar os aspectos positivos do uso do anonimato devido ao facto deste poder expor a sua verdadeira identidade sem que seja julgado pelos demais, no mundo presencial.

Palavras-Chave: Identidade; Anonimato; Online; Formação de impressões.


Ao longo da presente recensão irão ser citados autores que dão a conhecer as suas perspectivas, de forma a complementar e reforçar as ideias expostas nesta recensão. Autores como Palacios, Marchesi & Coll (1999), Sprinthall & Collins, (1999), a socióloga Sherry Turkle (1995), entre outros, são referenciados ao longo desta recensão.

O objectivo principal desta recensão é entender se existem divergências na identidade online, quando comparada com a identidade quotidiana da vida real, em contexto presencial. No entanto, para conseguir entender estas diferenças são estabelecidos objectivos específicos em que se tenta perceber se existem influências sociais para a criação de heterónimos e qual a ligação entre anonimato e as influencias sociais. No que diz respeito à formação de impressões, o objectivo é simplesmente reforçar que o factor social tem um forte impacto também a este nível, através das redes sociais. Esta recensão, centrada no estudo da identidade em ambientes online, foi organizada em dois temas, em que o primeiro encontra-se subdividido. Assim, o tema geral de partida “Identidade em contexto presencial e no online”, especifica-se em “Conceito de identidade”, analisando o que é a identidade e qual o seu desenvolvimento. Segue-se a “Identidade no presencial vs online”, no qual evidenciamos as diferenças entre as duas realidades, que nos propõem a pensar no seguinte subtema, que retrata “A importância do factor social na criação de heterónimos”. Este ponto dá-nos a percepcionar, como o próprio nome indica, a importância do meio social na criação, observação e experimentação de várias faces, sendo mais uma vez um ponto que nos faz pensar no seguinte que retrata o “Anonimato” e apenas os seus aspectos positivos. Por fim, como último subtema, temos a abordagem sucinta acerca da formação de impressões. Este especifica-se também em duas etapas, sendo elas o “Conceito de formação de impressões”, em que é explicado, de forma breve, no consiste a formação de impressões e de seguida é reflectido o outro subtema designado por “Formação de impressões no online”, que fala acerca das pistas não verbais, quase nulas em contexto virtual, dificultando a formação de uma impressão.


Identidade em contexto presencial e no online

Conceito de identidade

Para a reflexão destes pontos vamos procurar analisar as implicações de cada um no seu processo identitário, reflectindo assim sobre as características que evidenciam maiores diferenças.

Identidade é um termo que está estritamente vinculado com o auto-conceito, no entanto, o auto-conceito depende em grande parte do desenvolvimento cognitivo, enquanto a identidade é um fenómeno psicológico bastante complexo de natureza psicossocial. A identidade, apesar de ser uma característica pessoal, é experienciada em contexto social, onde o indivíduo estabelece uma serie de relações e experimenta vários papéis na interacção com os outros (Palacios, Marchesi & Coll, 1999).

Parece-me importante referir que existe na identidade dois tipos de componentes ligados às influências sociais que moldam a identidade individual. São os componentes recebidos e os componentes escolhidos. Os recebidos representam aspectos que o indivíduo não tem possibilidades de escolha, tais como o género, a etnia e a cultura de origem, representando o contexto para a escolha dos restantes aspectos (Palacios et al. 1999).

Segundo Erikson, a principal tarefa do desenvolvimento, na adolescência, é o estabelecimento da identidade (citado em Sprinthall & Collins, 1999), sendo que a transição da adolescência até à idade adulta é marcada pela aquisição de uma identidade pessoal cada vez mais sólida e acentuada (Palacios et al., 1999).

A identidade inclui as normas de pertença nos grupos em que o adolescente se integra, os valores que interioriza, a sua ideologia pessoal e os compromissos que assume, recolhendo as experiências passadas para poder atribuir significado ao presente e poder dirigir-se à sua conduta futura. Ou seja, trata-se de uma estrutura e organização interna construída pelo adolescente, em que este agrupa todas aquelas características que definem a sua forma de ser (Palacios et al., 1999).

De acordo com Erikson, o adolescente necessita de instruir uma noção coerente e sólida do seu self, com vista a compreender qual a sua direcção e a qual o seu papel no mundo. A base da personalidade adulta é formada pelo conceito que possuímos do nosso self, pela forma como nos vemos a nós, mas também pelo modo como somos encarados pelos outros. Ou seja, a formação da identidade exige a criação de uma estrutura única, que é percepcionada pelo indivíduo e reconhecida pelos outros, influenciando o interesse ao nível das relações interpessoais (citado em Sprinthall & Collins, 1999).

Durante a fase final da puberdade, dá-se uma crise de identidade como consequência da transição da infância para a adolescência, conjuntamente com todas as mudanças próprias desta etapa, levando o jovem a sofrer um sentimento de despersonalização e de estranheza de si mesmo (Palacios et al., 1999).

De acordo com Erikson (1968) suponha-se que a crise da identidade ficaria resolvida, na maioria dos casos, com o surgimento da identidade pessoal, que ocorre, como referido anteriormente, até à idade adulta. Quando estas crises não ficam resolvidas o indivíduo encontra-se ameaçado e tende a ter decisões conflituosas, sentindo-se incapaz de definir-se psicossocialmente, ficando preso a um isolamento e desprendimento (Palacios et al., 1999). Assim, alguns autores solicitam que as condições sociais actuais, não são favoráveis para promover a aprendizagem e realização da identidade pessoal (Cotè, 1996; Gecas & Burke, 1995, citados em Palacios et al., 1999).

Um outro campo importante na construção da identidade é o ambiente social, que irá ser abordado mais à frente. Isto é devido ao facto de que na adolescência, as relações familiares alteram-se e a família é substituída pelo grupo de amigos (Senos, 1997). O surgimento de relações amorosas constitui uma consequência de novas atitudes face à sexualidade desenvolvida, levando a que o adolescente passe a fortalecer o estabelecimento de laços entre pares, que por sua vez leva ao surgimento de pequenos grupos com preferências semelhantes, ou pela partilha de actividades (Richmond, 1985, citado em Senos, 1997).


Identidade no presencial vs online

No contexto presencial temos características pessoais, como a identidade, que são tidas em conta no contexto social, é como o nosso “ticket de entrada” para a interacção com o meio. No meio online, ao existir a falta do suporte visual dos indivíduos com quem interagimos irá ser necessária uma identidade virtual. Como reforça Terêncio e Soares (2003), existem transformações na identidade, sendo uma destas a eleição de um nickname.

Segundo Campos (2000) este conceito é o que faz o indivíduo ser conhecido na realidade online. Enquanto no contexto presencial o indivíduo tem um corpo com uma cara associada, cheiro, forma de se comportar e falar, com uma voz também associada, no online tudo se traduz num único conceito o nick, uma vez que é através deste que o individuo faculta os seus primeiros dados (citado em Terêncio & Soares, 2003). Esta realidade leva-nos a presenciar que muitos adolescentes procuram refúgio nas redes sociais, tais como em fóruns ou mais regularmente em chat’s (Ulloa & Montecinos, 2008).

A Internet é um sistema de redes em rápida expansão, que liga milhões de pessoas, em diferentes espaços. Isso dá azo a que exista uma alteração na forma como pensamos, na natureza da nossa sexualidade, na organização das nossas comunidades e inclusive na nossa identidade. Podendo afirmar-se desta forma que é na Internet onde as comparações com os aspectos da tecnologia que ferem a nossa concepção de identidade humana são mais evidentes. (Turkle, 1995). Anderson (s.d.) reforça esta ideia de que o mundo online é um novo espaço para uma construção do eu, afirmando que é “(…) uma dimensão da vida, na qual as pessoas podem ser quase infinitamente multifrênicas e proteiformes, uma matriz para novos relacionamentos”.

Posto isto, constatamos que existem divergências entre a identidade em contexto presencial e no contexto online. Este facto remete-nos a pensar na possibilidade que o indivíduo tem para poder mascarar-se, realizando assim a criação de diversas faces.


A importância do factor social na criação de heterónimos

Parece-me relevante falar acerca do factor social de forma a ser mais explicita o porquê da possível criação de diversas faces no mundo online.

Como designa Sarason e colaboradores (1983), o suporte social pode ser definido como a existência de indivíduos em quem se pode confiar, indivíduos que nos mostram preocupação connosco, valorizando e gostando de nós (citado em Ribeiro, 1999).

Segundo Ribeiro (1999), o suporte social leva o indivíduo a pensar que é admirado e que tem valor, o que faz com que acredite que pertence a uma rede de comunicação e ao princípio da reciprocidade. Assim, o adolescente tende a ter um grande número de amigos, na medida que esse facto vai desempenhar um papel de suporte social percebido e assim o adolescente tende a sentir-se reconfortado e mais seguro.

Desta forma, a comparação social é vista como um aspecto inerente e essencial na construção da identidade, uma vez que influencia a auto-avaliação, como um processo no qual trabalhamos o nosso self real, mas também o self que temos como sendo o ideal. Por outras palavras, esta distância entre selfs traduz o que somos e o que gostaríamos de ser. Pode-se assim afirmar que, quanto mais desenvolvida for a identidade do indivíduo, mais facilmente este reconhece as suas limitações e habilidades, dando ênfase ao modo em que é idêntico ou distinto dos demais. Assim, quanto menos desenvolvida for a identidade, de mais feedback externo o indivíduo necessita, fazendo com que seja para ele mais difícil avaliar e compreender os demais indivíduos como distintos (Kimmel e Weiner, 1998, citado em Schoen-Ferreira, Aznar-Farias & Silvares, 2003).

Depois desta breve achega ao factor social podemos começar desta forma a ligar este à criação de várias faces. Actualmente a Internet dá-nos a possibilidade de construir vários heterónimos, com a identidade que idealizamos para nós próprios, na nossa vida quotidiana, ou o que é mais usual, uma identidade que idealizamos e podemos por em prática a nível virtual. Como reforça Turkle (1995), o adolescente transparece ser aquilo que quiser ser. Segundo a autora, no online, existe muito a prática de uso das “janelas”, ou seja, a criação de diversas faces, onde pode existir a experimentação de muitos papéis em simultâneo, como reforça Terêncio e Soares (2003), ao comentar que a Internet é uma ferramenta de expressão e transformação da identidade em variados aspectos.

Assim, a satisfação com o suporte social no mundo online, no caso do facebook, dá-se através do feedback recebido por parte dos outros. Relativamente ao conteúdo exposto pelo adolescente no seu perfil, em forma de comentários ou “likes”, como reforça Boyd (2006), os comentários são o canal privilegiado para ser fornecido feedback.É comum encontrar os pares a trocarem comentários, isto leva a que o adolescente percepcione como é visto pelos outros, tendo em vista a percepção da sua aceitação/exclusão e sucesso/fracasso no que pretende transmitir aos demais. Como postula Boyd (2006), uma forma que o adolescente tem para conseguir atingir essa percepção é através da observação e experimentação de diferentes “Eu’s”, sendo este processo reforçado através do feedback do meio social envolvente pelas posturas (e.g., forma de vestir, estilo de falar), dando a entender ao adolescente qual a postura que se adequa mais e é mais satisfatória para ele.

De acordo com o Pew Internet and American Life Project (2001), os adolescentes percepcionam a Internet, como um espaço de convívio social (citado em Buckingham, 2008) que lhes possibilita experienciar o papel do indivíduo que desejariam poder ser, devido a existir menos receio de serem julgados pela sua forma de ser ou inclusivamente pela sua aparência. Conseguindo desta forma, contornar o eventual surgimento de preconceitos que se fazem sentir na comunicação face-a-face. A Internet é então, a forma ideal para testar várias relações e identidades (Griffiths, 1988, em Lopez, 2000; Young, 1997, citados em Buckingham, 2008). Desta forma, podemos fazer um paralelismo entre esta experimentação de papéis que o indivíduo encarna no mundo virtual e os heterónimos de Fernando Pessoa, na medida em que este afirmava que sentia vários “Eu’s” a pulsar dentro de si, com características completamente distintas uns dos outros, como que se de outras pessoas se trata-se.

Como refere Turkle (1995), no cyberespaço podemos conversar, trocar ideias e adoptar identidades fictícias que nós próprios criamos. Temos oportunidade de construir novos tipos de comunidades virtuais nas quais interagimos com pessoas de todo o mundo, com as quais podemos dialogar diariamente e estabelecer relações bastante íntimas, mas que possamos nunca vir a encontrá-las fisicamente.

A falsificação da identidade no online acontece devido à possibilidade que a Internet traz da experimentação de diferentes facetas do eu, facetas estas que não poderiam ser experimentadas na vida real, devido às exigências/pressões do meio social envolvente. Contudo no mundo online não existem esses entraves, dando oportunidade a que haja uma auto-expressão livre que potencia o crescimento e desenvolvimento de uma nova identidade pessoal (Turkle, 1997; Suler, 2001, citados em Terêncio & Soares, 2003).

Como podemos verificar, o ambiente social tem influência na criação de diversas faces no online, pois é uma forma que o indivíduo tem de experienciar e construir a sua identidade. Contudo isto remete-nos novamente para outra temática relevante que é o anonimato. Tal como afirma Suler (2001), esta experimentação de identidade é estimulada pela sensação de anonimato que a Internet nos incute.


Anonimato

O anonimato funciona como um desinibidor, e com o surgimento do online tem vindo a ganhar preponderância, porque é uma forma de indivíduos com um nível mais elevado de introversão, ou portadores de alguma deficiência física ou de dificuldades na comunicação verbal poderem iniciar e manter relacionamentos sem se sentirem desconfortáveis. Constatamos isso quando queremos fazer perguntas para as quais não se sabe a resposta, ou quando se tem medo de admitir a ignorância face a um tema. Estes são alguns exemplos em que o anonimato está presente e que suportam a ideia de que o anonimato pode ser vantajoso evitando possíveis ridicularizações públicas, censura, lesões corporais, ou em alguns casos a perda de emprego, tendo em conta a existência de intolerância social. (Chawki, 2006).

Assim, podemos assegurar que a Internet é um meio facilitador das interacções pessoais, na medida em que o indivíduo pode exprimir determinadas atitudes que não seriam aceitáveis no mundo real, assim como experienciar papéis sem ter receio do preconceito ou criticas do meio envolvente. Helsingius (s.d.), reforça esta ideia ao sugerir o anonimato como benéfico ao fazer com que o indivíduo expresse as suas opiniões, mesmo que estas sejam controversas (citado em Chawki, 2006). ones. He argues that it is “ good to bring out things like that in daylight because that actually

Ao olharmos para os adolescentes dos nossos dias podemos constatar que estes têm uma tendência para as relações mediadas pela Internet, em parte devido aos constrangimentos quase nulos que esta confere (Wolak, Mitchell & Finkelhor, 2003). Denota-se ainda que o indivíduo não tende mais a julgar o próximo através do aspecto físico, social, cultural ou económico, tornando-se estas características pouco relevantes, pelo menos num contacto inicial. Tornaram-se assim anónimos e afísicos os primeiros estádios da comunicação. Isto leva a que os contactos sejam promovidos através daquilo que se consegue expressar, acerca de si, pela escrita (Costa, s.d., citado em Terêncio & Soares, 2003), sem pensar nas barreiras que a timidez ou insegurança não permitem num contexto que não seja anónimo (Queirós & López, 2006). Carter (2004) salienta que o desenvolvimento de uma relação vai depender em grande parte da agradabilidade da conversação.

Turkle (1995) reforça também que a falta das pistas não verbais que nos orientam nas interacções face-a-face, dá-nos a possibilidade de construir e experimentar diversas personagens, devido à protecção permitida pelo anonimato. Esta faz sentir-se através dos falsos perfis, permitindo ao adolescente a experimentação de papéis mais ousados, onde este tem a possibilidade de realizar fantasias no mundo online, que não seriam aceites de uma forma desinibida na vida real.

Em forma de conclusão, pode-se dizer que o anonimato acaba por trazer aspectos positivos, ao contrário do que é habitual pensarmos, pois através deste também presenciamos que os indivíduos parecem estar mais predispostos a revelarem os seus medos e os seus segredos, e também a serem mais honestos do ponto de vista emocional, ou ao prestarem mais informações acerca de si próprios. (Joinson, 2004; Suler, 2004, citados em Whitty, 2008).


Formação de impressões

Uma temática bastante importante é a formação de impressões, pois as impressões influenciam a forma como os indivíduos interagem uns com os outros.

O processamento humano da informação pode ser de duas formas: construtivista (Asch, 1946), ou associacionista. No que diz respeito aos modelos da formação de impressões existem duas vertentes: os modelos clássicos, como o configuracional de Asch (1946), ou os modelos de cognição social.

Para formar uma impressão acerca de alguém não é necessário existir muita informação disponível, sendo que também não existe segundas oportunidades para formar uma primeira impressão. Isto acontece porque a primeira impressão que criamos do indivíduo é a mais forte e difícil de ser alterada.

Assim, pode dizer-se que formar uma impressão é organizar a informação disponível acerca de um determinado indivíduo, de forma a poder integrá-la numa categoria que seja significativa para o próprio. Nas interacções face-a-face a aparência física, o vocabulário, a gramática e outros marcadores linguísticos fazem com que exista uma influência exorbitante na forma como os indivíduos formam as impressões iniciais, uns dos outros (Ekman & Keltner, 1997; Goffman, 1959; Lea & Spears, 1995; Zebrowitz, 1996, citado em Jacobson, 1999).

No que diz respeito às primeiras impressões, uma componente fundamental é a categoria avaliativa, uma vez que é muito rápida e foi incrementada com pouca informação. Esta pode ser de tipo afectivo, moral e instrumental, contudo as pesquisas tendem a incidir apenas nas duas primeiras. Assim, pode-se afirmar que depois de designada a avaliação positiva ou negativa estamos prontos para realizar inferências óbvias, para nós, sobre a inteligência, integridade, ambição, entre outras do indivíduo em causa. Hamilton e colaboradores (1980) atestam que a facilidade com que o indivíduo acede à informação específica à qual dispõe mostra que esta não é processada no vazio e são utilizadas estruturas cognitivas para a complementarem e tornarem-na coerente.

Segundo o modelo construtivista de Asch (1946), a informação acerca de um indivíduo pode ser obtida de uma forma directa, ao observarmos o comportamento verbal e não verbal, através da interacção, ou de uma forma indirecta, através dos traços de personalidade (inteligente, estúpido, simpático), ou através de um simples “ouvi dizer”, uma vez que não é necessário observarmos qualquer destes atributos para criarmos uma impressão unificada acerca de alguém, apesar de o indivíduo poder mostrar características diferentes, ou até mesmo contraditórias (citado em Caetano, 2004).

No mundo online a maioria destas pistas estão ausentes ou são mais reduzidas. Desta forma é mais difícil criar uma primeira impressão tão congruente como as impressões realizadas no mundo real. Assim, a formação de impressões no online é feita com base nas poucas pistas que os indivíduos fornecem uns aos outros. Contudo a evolução dos media sociais têm permitido uma proximidade ao real do que é tipicamente característico das interacções face-a-face. A evolução que se verificou desde os canais de chat mais simples como o Mirc, até algo mais arrojado e complexo como é o facebook, mostra como foi clara esta evolução. Desta forma pode-se dizer que as pistas são, no caso dos canais de chat, fornecidas através dos nickname’s, mas se pensarmos em redes sociais como os blog’s, estas pistas já são mais centradas em aspectos ao nível dos gostos e interesses do indivíduo, uma vez que tem a possibilidade de interagir com as publicações, fotos, músicas, entre outras coisas que este publica. Dentro do campo das redes sociais, apenas se falarmos de locais, tais como o facebook, onde existe maior interacção e exposição da identidade, é que nos podemos aproximar do que é uma formação de impressões no contexto presencial, ou mundo real, uma vez que neste existe a possibilidade de ver o indivíduo e observar o comportamento verbal e não verbal do mesmo.



Considerações finais

Como pudemos observar durante a escrita/leitura desta recensão, existe diferenças entre a identidade em contexto presencial e no contexto online.

Desta forma, surgiu a problemática da influência do factor social na criação de heterónimos. Turkle refere que a Internet é o elemento que contribuiu para encararmos a identidade como multiplicidade, originando com que o indivíduo tenha a oportunidade de construir vários heterónimos (1995). Nesta problemática também foram detectadas diferenças, na medida em que o indivíduo através da observação, criação e experimentação de diversas faces tem hipótese de construir a sua identidade, algo que não será possível no mundo real.

Um aspecto bastante relevante do uso da Internet, que foi colocado nesta recensão, foi a possibilidade do anonimato, que esta interligado à problemática anterior. Através deste, o indivíduo pode experienciar um vasto número de heterónimos. Para além deste aspecto, dá também a possibilidade de o indivíduo expor, com uma maior predisposição, os seus segredos mais íntimos, medos e emoções acerca de sim mesmo.

O último ponto falado nesta recensão foi a formação de impressões, que foi abordado de uma forma sucinta, com o propósito de reforçar que, mais uma vez, a Internet está presente de uma forma bastante activa também neste campo. As redes sociais têm um forte impacto, nesta temática, especialmente quando falamos em ferramentas como o facebook, blogues ou mesmo chat’s.

Como uma investigação futura, julgo ser importante, investigar mais acerca das diferenças entre a formação de impressões online, em redes sociais como o facebook, em que temos a possibilidade de visualizar pistas do indivíduo, através de fotografias ou vídeos e acompanhar o seu comportamento verbal e não verbal, de forma a compará-las com outras redes sociais em que não existem essas mesmas pistas, tais como os chat’s, em que o único ponto de referência será o nickname.


Referências Bibliográficas

Boyd, D. (2006). Friends, Friendsters, and Fop 8: Writing community into being on social network sites. First Monday.

Buckingham, D. (2008). Introducing Identity. Em: D. Buckingham, Youth, Identity, and Digital Media. Cambridge, MA: The MIT Press, 1-24.

Caetano, A. (2004). Formação de impressões. In J. Vala & M. B. Monteiro (Eds.), Psicologia social (6ª ed.). Lisboa: Fundação Caloustre Gulbenkian.

Carter, D. (2004). Living in virtual communities: making friends online. Journal of Urban Technology, 11 (3), 109-125.

Chawki, M. (2006), Anonymity in Cyberspace: Finding the Balance between Privacy and Security, Droit-Tic, Juil.
Jacobson, D. (1999). Impression Formation in Cyberspace: Online Expectations and Offline Experiences in Text-based Virtual Communities. Brandeis University, JCMC, 5 (1).

Palacios, J., Marchesi, Á., & Coll, C. (1999). Desarrollo psicológico y educación, vol 1. Psicología evolutiva (2ª edición). Madrid: Alianza Editorial.

Queirós, I., & López, A., (2006). Jóvenes y Cultura Menssenger – Tecnologia de la información en la sociedad interactiva. Madrid: Ancares Gestión Gráfica.

Ribeiro, J. (1999). Escala de satisfação com o suporte social. Análise Psicológica, 3 (XVII): 547-558.

Schoen-Ferreira, T., Aznar-Farias, & Silvares, M. (2003). A construção da identidade em adolescentes: um estudo exploratório. Estudo de Psicologia, 1 (8), 107-115.

Senos, J. (1997). Identidade social, auto-estima e resultados escolares. Análise Psicológica, 1 (XV): 123-137.

Sprinthall, N., & Collins, W. (1999). O desenvolvimento da criança e do adolescente. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Terêncio, M., & Soares, D. (2003). A internet como ferramenta para o desenvolvimento da identidade profissional. Psicologia em Estudo, Maringá, 2 (8), 139-145.

Turkle, S. (1995). A vida no ecrã – a identidade na era da internet. Lisboa: Relógio de Água Editores.

Ulloa, L., & Montecinos, F. (2008). La generación Messenger – relevancia de la mensajería instantánea en la adolescência chilena. Ultima Década, Cidpa Valparaíso, 28, 35-49.

Whitty, M. T. (2008). Liberating or debilitating? An examination of romantic relationships, sexual relationships and friendships on the Net. Computers in human behavior, 24, 1837-1850.

Wolak, J., Mitchell, K., & Finkelhor, D. (2003). Escaping or connecting? Characteristics of youth who form close online relationships. Journal of Adolescence. 26, 105-119.

Sem comentários:

Enviar um comentário